Sons da Mata

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terça-feira, 4 de maio de 2010

Caminhando com o Sons da Mata na Cumbuca

Situando um pouco onde nos encontramos nesse caminho da pesquisa, registro e memória da cultura popular, falemos sobre esse rico legado que Mário de Andrade nos deixou, que foi a Missão de pesquisas folclóricas, onde nos idos de 30 viajou pelo Nordeste Brasileiro colhendo músicas e relatando folguedos tradicionais.Pioneiro nessa empreitada, abriu caminhos para que até hoje pesquisadores sigam seu método como referência.
Também Ariano Suassuna pesquisou e contou as especificidades de sua Taperoá e Nordeste queridos. Assim também fazemos em nossa Zona da Mata mineira.
Nesse mês de Maio , colocaremos um gravador, uma câmera, uma cadernetinha em nossa cumbuca e partiremos para campo. Parafraseando o poeta: "Vou por campo, no campo tem flores, as flores tem mel, mas à noitinha, estrelas no céu...Não sou vagalume, mas eu crio asas...quero acordar com os passarinhos, cantar uma canção com o sabiá..."Para o campo da Zona da Mata Leste, em Piacatuba, onde a fé em Nossa Senhora da Piedade e na Santa Cruz Queimada faz parte do imaginário dos visitantes e habitantes locais. Fitas, flores, oferendas, promessas, músicas, novenas, embalam os dias e noites frias desse pacato distrito de Leopoldina entre os dias 01 e 03 de maio.

Com nossos corações aquecidos e gratos, participaremos no dia 08 do I Terreiro Cultural em Araponga, na Serra dos Arrepiados, pertinho de Viçosa, onde certamente iremos prosear bastante sobre cultura popular e artesanato feito de palha de café, aliás, Araponga está entre as cidades exportadoras de café com melhor qualidade no Brasil, um orgulho para os araponguenses! Também será discutido questões ambientais, movimentos de base, o Encontro Nacional da Teia desse ano, pois esses puris estão no interior mas não isolados; se organizaram e criaram o Cepec que desenvolve um trabalho de conscientização, resgate e informação cultural junto às comunidades no entorno do Parque da Serra do Brigadeiro, sendo hoje também um Ponto de Cultura que desenvolve esse artesanato com a palha de café.
Em meio a um dedo de prosa e um café e outro, participaremos de um cortejo com os grupos tradicionais de Folia de Reis, Congado, Charola,Dança de Caboclos, João do Mato e para encerrar uma brincadeira de roda com Farinhada. Um exemplo do que há de melhor em compadrio, amizade e comunidade organizada!

Na semana seguinte, entre os dias 14 e 16, iremos para Visconde do Rio Branco participar da comemoração à Nossa Senhora do Rosário e aos Orixás. Nessa comunidade o sincretrismo religioso é muito presente, iniciando os festejos à noite com uma feijoada aos pretos velhos, no dia seguinte coroação do Rei e Rainha do Congado, desfile pelas ruas, com seus corta-ventos , velhos, jovens, crianças e todo o séquito de Nossa Senhora. Devoção, emoção e fortalecimento dos laços familiares e ancestrais.
São nesses momentos que estamos junto às comunidades que aprendemos questões fundamentais tanto ao nosso desenvolvimento humano quanto ao artístico. A música espontânea, a arte genuína, os ensinamentos seculares nos dá asas e forteleçem, plantam em nossos solos sementes que florescem frutos fortes, saudáveis e doces, feito mel.



Para saber mais, visite:
Cepec MG.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Metodologia


A iniciativa de falar um pouco sobra a forma de trabalho musical do grupo se deu pela vontade de apresentarmos um pouco de nossa rotina diária. Utilizando a palavra metodologia por ser mais didática, porém acreditamos que o trabalho não se restringe a um método, mas envolve um somatório de influências e interfaces.
Tendo como um dos norteadores principais os grupos tradicionais e sua forma de transmissão/assimilação e execução de sua música, observamos que os conhecimentos musicais são apreendidos de forma espontânea e prazerosa.
Buscamos também referências no Taoísmo, enquanto “um caminho seguido por acontecimentos naturais, caracterizado pela criatividade espontânea, assim como a primavera seguida do verão e a noite do dia”. (Livro: "O tao da voz"- Sthefen Chun- Tao Cheng).
O símbolo chinês para música é “iuê”, que também quer dizer “feliz” ou “felicidade” quando pronunciado “lo”. Assim, música e felicidade estão muito ligadas podendo se tornar uma coisa só. Dialogando com essas referências procuramos criar no grupo antes de tudo um florescimento humano, trazendo para o coletivo a experiência, a cultura e a educação de cada participante. Numa investigação contínua, procuramos o desenvolvimento de nossas potencialidades mentais, do corpo, do coração e musicais de forma prazerosa, fazendo essa viagem juntos.

Etapas do trabalho diário:


Aquecimento corporal
Iniciamos nossas práticas com exercícios de concentração, relaxamento, respiração profunda, que geram um fluxo de energia para falar, cantar e tocar e acima de tudo, em sintonia com o Tao, na formação do equilíbrio entre corpo, mente e espírito.Exercício 1: “Galo dourado de pé numa perna só”.
Consiste em ficar de pé com as pernas unidas, numa postura relaxada e flexível; olhar para frente, ternamente. Inspiramos e elevamos ao mesmo tempo perna e braço direitos, até o dedo angular atingir o nível das sobrancelhas, em movimento contínuo e suave. Ao expirar, descemos a perna e o braço até tocar o chão. Reinicia o movimento de inspiração e subida alternando assim braços e pernas, inspiração e expiração. Muito bom para concentração, aprofundamento da respiração e geração de energia vital.

Exercício 2: “girando em torno do sol”.
Posicionamos com as pernas ligeiramente abertas. Dobramos os joelhos e relaxamos os braços ao longo do corpo com o tronco abaixado. A partir daí, imaginamos estar segurando uma bola e giramos em volta do corpo, lembrando sempre de inspirar ao subir e expirar ao descer. Realizamos três vezes para cada lado. Ao imaginarmos que a bola e nossos quadris estão girando em torno do sol, sentimos a capacidade de expansão de nosso ser e a vibração e energia existente em cada um de nós.

Exercício 4: sopro Ha.

Exercício respiratório utilizado na Hatha Yoga , desenvolvida no Brasil pelo Prof. Hermógenes onde nos posicionamos de forma ereta.
Iniciamos uma inspiração completa, levantando os braços esticados até o alto da cabeça. Retemos o ar contando até três e aí então, baixamos o tronco e braços expulsando o ar pela boca num sonoro ha. Repetimos o processo, lembrando que a inspiração e expiração devem ser realizadas pelo nariz. Beneficia a limpeza das vias respiratórias e refresca a circulação sanguinea, além de trabalhar contra a depressão e o desânimo.












Aquecimento vocal


Exercício 1:

Utilizamos a imagem do movimento circular contínuo e a interação de forças opostas (Yin e Yang) nesses exercícios. Como imagens podemos pensar em rodas em suas mais variadas formas, como uma ciranda, um Cd girando...
Começamos o círculo fixando um ponto entre e atrás das sobrancelhas, o “centro do espírito”, esse círculo continua a partir desse ponto ao “centro de energia vital”, localizado mais ou menos cinco centímetros abaixo do umbigo. Ao inspirarmos imaginamos o ar descendo do "centro do espírito" até o "centro de energia vital"; ao expirar imaginamos que o ar continua descendo pelo "centro de energia vital" até a base da coluna, depois subindo por ela, percorrendo a parte de trás do pescoço até a coroa da cabeça; ao inspirar reiniciamos o processo.



Exercício 2:

Imaginamos que nosso abdômen é um balão. Apoiamos nossas mãos ao lado e abaixo das costelas e inspiramos enchendo o balão; retemos um pouco o ar e soltamos em ssss... Repetimos algumas vezes. Fazemos então a respiração do fole, onde mantemos as pernas afastadas, abaixamos a cabeça e apoiamos as mãos nas pernas. Ispiramos, retemos um pouco o ar e ao expirar soltamos em sss... “jatos de ar” impulsionando nosso abdômen como um fole, ao final soltamos todo o restante do ar.
Voltamos à posição ereta inspiramos e soltamos o ar em trrrr... brrrr... e barulhinhos de beijo para aquecimento das cavidades internas de nossa caixa craniana e órgãos formadores.
Realizamos um pequeno vocalize em boca quiuza e uma pequena melodia em escala ascendente e decrescente. Passamos então as vozes na música “Tapete Batumã” para aquecimento e afinação do grupo.






Método O Passo

Em 2004 tomamos contato com esse método desenvolvido por Lucas Ciavatta e notamos sua eficácia no trabalho do ensino - aprendizagem de ritmos e da pulsação, tendo como base musicais a própria pulsação e o movimento musical. Trabalhando através da simples proposta do andar em sincronia, o método gera a presença de uma pulsação constante em um descolamento e organização corporal do grupo. Havendo fluência no movimento, haverá fluência no tocar.
Executamos um exercício elementar de imaginar um quadrado, andar em seus vértices, primeiramente falando os números, depois trabalhando com som, silêncio e palmas. Passamos então para a Folha do Passo como exemplo de uma partitura de aproximação, uma vez que nem todos do grupo são ainda iniciados na escrita musical formal. Primeiramente falamos os números e no lugar dos parênteses fazemos silêncio, depois substituímos os números por palmas e mantemos o silêncio nos parênteses.










Método Uakti

Em 2005, com oficinas realizadas pelo Uakti em Leopoldina, demos o início efetivo ao grupo Sons da Mata. De lá pra cá, algumas coisas mudaram e todas as propostas musicais passaram a ser experimentadas e construídas sob uma nova dica: "o ritmo não é mais medida e sim visão de mundo. É um ir em direção a alguma coisa, ainda que não saibamos o que seja. O tempo por sua vez, não está fora de nós, possui sua direção, um sentido, porque ele nada mais é que nós mesmos. Não é o que foi nem o que está sendo, mas o que está se fazendo". O que está sendo gerado no momento da criação musical e depois como recriação quando a platéia revive as imagens dos músicos e convoca de novo o passado que revive.
Mostramos então um pouco dessa criação musical coletiva do grupo, organizando-se ritmicamente no tempo em direção a alguma coisa. Como ferramentas utilizamos os tubos de PVC criados por Marco Antônio Guimarães e em reminiscências sonoras onde o “tempo é arquetípico, e o passado um futuro disposto a se realizar num presente”.)( Referências do texto: "O Arco e a Lira"-Otávio Paz
).



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Tapete Batumã - Ensaio Aberto



Essas são imagens e sons da música apelidada por nós de Tapete Batumã, pois como se sabe, essas cantigas da cultura popular que são transmitidas oralmente não tem nome próprio. Por serem bem sonoros e talvez alguma corruptela de uma antiga linguagem africana e cabocla adotamos como título e referência. Nos foi transmitida por Dona Maria do Rosário, rainha do Congado de Nossa Senhora do Rosário de Visconde do Rio Branco, num momento em que emocionada, contou-nos que tinha aprendido com sua mãe que sempre cantava essa canção. Fala da fé inabalável que os congadeiros devocionam à Nossa Senhora do Rosário, mesmo diante da adversidades e atroçidades brancas, dizendo: "quando vou confessá meu joei vai no chão,chego perto do padre e ainda peço perdão" e que esses negros devotos sabem a hora de morrer questionando os brancos e toda sua sabedoria, que apesar de sabendo ler e escrever; "mas como é que eles não sabem o dia que vai morrer"? Sabedorias ancestrais...


A música apresentada no vídeo acima está sendo trabalhada no processo de criação do Cd, onde postaremos nossas experimentações. Essa gravação, resultado de nosso primeiro estudo, foi no II Ensaio Aberto realizado na Casa de Leitura "Lya Maria Müller Botelho"no dia 16 de Abril, em Leopoldina..






 
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